Teshuvá

Yitschak
Catroque

No Torah Viva

Eu estava pensando sobre o que você falou, quanto a conversão. É difícil identificar quando cada um de nós atinge o ponto em que podemos dizer que somos nazarenos (israelitas). Isso porque não há uma forma objetiva de validar o nível de transição que estamos passando, pois trata-se de uma convicção pessoal.

Eu creio que alguém que deseja ser judeu nazareno (judeu no sentido israelita), deve inicialmente avaliar a chama que arde em seu coração quanto a buscar ao Eterno. Interrogar qual a motivação que toma parte desta necessidade. Despir-se da busca para as suas necessidades materiais e verificar se sobra algo. Como toda observação humana tem suas exceções, por exemplo, alguém com uma enfermidade está muito propensa a buscar ao Eterno de todo coração, mas nem todas conseguem incorporar a teshuvá ao longo do tempo, a ponto de afastarem do Altíssimo após um período quer seja de benção, quer seja de paciência.

Não creio em conversão do tipo “estrada de damasco” nos dias de hoje, embora aceite que haja exceções. Pois num mundo em que os valores sociais não tem nenhuma perspectiva, quero dizer, nenhum bigode é aceito como contrato, é difícil conseguir enxergar um processo de conversão muito rápido. Talvez por isso não goste muito da palavra conversão, pois no cristianismo é usada como algo extraordinário, em que apenas um gesto é necessário para identificar o cidadão como um membro. Prefiro o termo teshuvá.

Teshuvá, no meu ponto de vista, é um caminho lento, e é importante que seja lento, pois só assim podemos solidificar corretamente os conceitos e ter tempo para incorporar no dia-a-dia as mudanças que são necessárias. Também dá a oportunidade da pessoa definir suas escolhas, ou seja, verificar a identificação e convicção para com sua fé. Claro que nós cremos que a fé nazarena está conforme nos afirmam as escrituras, mas o livre arbítrio conferido a todos nós não pode ser afogado neste processo. Nem HaShem faz isso conosco, porque faríamos com nossos semelhantes.

Eu imagino que cada um de nós passa por alguns períodos em que a consolidação da fé é fundamental para um próximo. Que alguns acabam misturando esses períodos até que em um momento não conseguem mais superar a absorção ou solidificação, e então acaba gerando trincas e em qualquer momento rompe ou apostata da fé.

Existe uma palestra de um diretor da empresa coca-cola (não sei se é fake, mas é interessante) que tem um modelo que se enquadra bem quanto essa solidificação que venho dizendo. Imagine que cada conceito da teologia nazarena seja uma bola de vidro que pode ter diversas formas e tamanhos mas sempre num mesmo padrão, e que cada um de nós vai ao longo do tempo pegando uma dessas bolas (conceitos) e vai fazendo uma espécie de malabares com elas.

Imaginemos que iniciamos com 2 bolas. No início do malabares o equilíbrio das bolas parece difícil, mas com um pouco de treino (estudo e prática) você vai conseguindo equilibrá-las satisfatoriamente. Quando você se sentir confortável, pega mais 1 bola, e o processo torna-se novamente instável, mas ao longo do tempo, com perseverança, estudo e muita prática, acaba superando as dificuldades e manuseando adequadamente.

Há pessoas que o processo é rápido, conseguem manusear o malabares eximiamente, enquanto outros demoram um pouco mais. Alguns até mesmo necessitam voltar para o estágio anterior pois superestimaram sua capacidade, mas o aprendizado e a consciência deixam-na mais preparada para atingir o próximo passo novamente.

Quando aparece uma bola que não acomodar aos moldes das bolas anteriores, simplesmente a descartamos e continuamos o processo. Mas para descartar temos que avaliá-las no estágio de malabares que estamos, temos que testá-la no modelo que estamos manuseando.

O processo normal sugere que a cada passo alcançado gastemos um tempo colocando em prática e aprofundando o estudo do malabares, cada vez mais especializando o manuseio das bolas. Algo interessante acontece: as bolas mais antigas acabam tendo um valor afetivo para a pessoa, pois acaba sendo como um marco de superação. Portanto, o cuidado com as bolas mais antigas tende a ser mais sublime, não que a bola seja mais frágil, mas manuseá-la é mais prático, dado o tempo em que tem contato.

Com o passar do tempo mais e mais bolas são incorporadas no nosso malabares e um bom conhecimento de cada bola já em uso faz com que a capacidade de acomodação seja simples e agradável, assim como a identificação das bolas que não se adequam ao modelo por nós praticado.

Bem, é claro que nesta alegoria, podemos esperar que algumas pessoas queiram pegar bolas rapidamente, até mesmo tentando pular etapas de aprendizado e absorção da prática necessária, ou ainda é pego uma bola que não se adapta ao modelo de bolas utilizado (imagine uma oval bem prolongada) e isso acaba com a queda de algumas bolas e conseqüente desfacelamento. A partir daí temos grandes possibilidades de análises, pois para alguns pode ser difícil voltar a tentar equilibrar bolas, para outros um processo doloroso, para outros a perda de alguma bola estimada é duro de ser reparada, outros querem adaptar as bolas para se convencer que era igual a anterior, outros acabam aceitando bem o início do processo, e por aí vai.

Aonde quero chegar: Consolidar os conceitos básicos da fé nazarena é um primeiro passo, e importantíssimo que se prossiga adiante. Analisar as questões de echad, a natureza de YHWH, a relação de Yeshua nesta natureza, avaliar a primazia aramaica das escrituras, a aliança de Elohim com o povo de Israel ainda em vigor, a necessidade do cumprimento das mitsvot, a consonância dos textos da brit chadashá aramaica com o tanach, entre outros, é fundamental à identificação da fé.

Com a convicção da fé estabelecida parte-se então para a fase da prática das mitsvot e esse é o ponto em que creio que alguém possa se chamar judeu nazareno, pois se a convicção for estabelecida e a kavaná estiver direcionada ao amor ao Eterno, então os próximos passos serão absorvidos com amor e alegria, que são as mitsvot. Algumas pessoas impressionadas com a grandeza da cultura judaica, acabam vertendo suas intenções e/ou necessidades para outras finalidades como a necessidade de ser aceito em um determinado grupo, a dificuldade de aceitar a indiferença social dado a escolha realizada (quanto a religião), e pessoas com problemas emocionais que acabam fazendo da fé um subterfúgio para suas necessidades de relacionamentos, solidão, aceitação, entre outros, que acabam fragilizando a convicção ou solidificação da fé nazarena.

Cada mitsvot deve ser passo a passo, dia a dia, compreendida, estudada e praticada. Não creio que para alguém que esteja iniciando deva ser todas de uma vez. Que estabeleça períodos de adaptação que condizem com sua situação, quer seja financeira, quer seja familiar, quer estruturais. Afinal, se o coração da pessoa apontar para YHWH, certamente Sua misericórdia pairará sobre ela.

Para a maioria não é um processo simples e fácil. É dolorido pois as bolas de nosso malabares anterior serão destruídos, e isso gera dor, mas é necessário. A convicção da fé nazarena é em geral um período duro, de choro, e inconstância. Mas a perseverança traz frutos gratificantes.

Minha recomendação é fazer uma auto-análise periodicamente, pesquisar e escrever os questionamentos ao grupo de forma séria e diplomática, mostrando os conceitos que estão em difícil compreensão, expondo as dificuldades. Lembre-se que esse grupo é sério e há uma grande diferença da libertinagem que você encontra ao longo da internet.

Bem, fui muito além da sua questão, mas achei interessante colocar minha visão sobre o processo de teshuvá. Afinal, a formalização da religiosidade de dá por você mesmo, quando sua convicção passa a ser sólida e a prática das mitsvot já estão aflorando no seu dia-a-dia.

Que YHWH lhe abençoe.

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