Quando há os que morrem, mas não os que matam

Muito bem. Vocês querem ver como são as coisas? Leiam o que vai abaixo:

“CIDADE DE GAZA – Um soldado israelense e um civil palestino foram mortos nesta terça-feira, 27, em confrontos na região da fronteira com a Faixa de Gaza. Segundo canais árabes de notícias, o militar foi morto quando sua patrulha foi atingida por uma bomba lançada por militantes. Após o incidente, um palestino foi atingido por disparos israelenses nas proximidades do ataque. Estes é o primeiro soldado israelense morto desde o início do cessar-fogo anunciado em 18 de janeiro entre Israel e o Hamas. O episódio ainda acontece às vésperas da primeira visita ao Oriente Médio de George Mitchell, enviado para a região do novo presidente dos Estados Unidos, Barack Obama. Segundo o novo presidente, Mitchell perseguirá a paz de forma “vigorosa e consistente”.

É o primeiro parágrafo de um texto do Estadão On Line, que reproduz notícia das agências internacionais.

Observem que, segundo o que vai acima, a escaramuça matou um de cada lado. Com empate de mortos, parece, todos se conformam. Mas o que interessa na notícia acima? Justamente o que não aparece como notícia: O HAMAS VIOLOU A TRÉGUA. Sim, eis a notícia, eis o lead, eis o título — se o Hamas não tivesse, de fato, penetrado no coração do jornalismo isento. É violação de trégua. Como sempre e como de hábito. O título dado pelo Estadão On Line é muito interessante: “Soldado israelense morre em explosão na fronteira de Gaza”. Como se vê, quando soldado israelense morre, parece que ninguém o mata. Sujeitos que matam, no fato e na gramática, só aparecem quando são sujeitos israelenses…

Num outro texto, também com base na informação das agências, as coisas melhoram muito no que diz respeito à verdade. Leiam:


“CAIRO – No dia em que milícias palestinas quebraram o cessar-fogo matando um soldado de Israel, que reagiu com um ataque aéreo, autoridades egípcias propuseram um acordo de trégua permanente entre a facção Hamas e Israel na Faixa de Gaza a partir de 5 de fevereiro, informou a agência oficial de notícias Mena. A proposta foi apresentada durante uma reunião nesta manhã entre o chefe dos serviços secretos egípcios, Omar Suleiman, e uma delegação da Frente Popular para a Libertação da Palestina, liderada por Maher al Taher, membro do escritório político desta facção.”

As coisas melhoraram bem. Fala-se da quebra do cessar-fogo, e já há, ao menos o que morre e o que mata. Mas, de novo, observo que o objeto da notícia não é a provocação palestina, que surge apenas como um dado do contexto.

E não é assim só aqui, não. É uma tendência da imprensa ocidental, que tem hoje seus mocinhos e seus vilões. Os humanistas do Hamas estão do lado dos mocinhos…

Por Reinaldo Azevedo

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